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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Síndrome de Savant é um mistério que fascina e intriga a ciência!

O Globo lembra que o americano Kim Peek sabe de cor mais de 7500 livros aos 55 anos

2006-04-11


kim Peek
kim Peek
Os portadores de Síndrome de Savant são um mistério que fascina e intriga a ciência. Donos de uma memória extraordinária – são capazes de decorar livros inteiros depois de uma única leitura ou tocar uma música com perfeição após a primeira audição –, eles possuem ao mesmo tempo sérios défices de desenvolvimento, como uma grande dificuldade para falar e se relacionar socialmente. É assim que começa um texto da edição on-line do jornal O Globo, de quem Ciência Hoje recebeu autorização expressa para citar e reproduzir parcialmente.
Ainda segundo O Globo, a síndrome costuma aparecer em dez por cento dos autistas e também dois por cento das pessoas que sofrem algum tipo de dano no cérebro, provocado por acidente ou doenças. O mais famoso savant do mundo, o americano Kim Peek, que inspirou o director Barry Levinson a fazer o filme Rain Man, aprendeu a ler aos 2 anos e hoje, aos 55, sabe de cor mais de 7.500 livros.


«Rain Man»: a história de Kim Peek
«Rain Man»: a história de Kim Peek
«Eles desenvolvem habilidades excepcionais numa determinada área, mas mal conseguem comunicar-se e relacionar-se com as outras pessoas. Costumamos dizer que são como ilhas de excelência num mar de deficiências», conta a O Globo o psiquiatra Estêvão Valdaz, coordenador do Projecto Autismo do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Quem primeiro descreveu o savantismo foi o médico Langdon Down – que ficou famoso por ter identificado a síndrome de Down (vulgo mongolismo). Em 1887, Down apresentou à sociedade médica de Londres a história de dez pacientes que ele chamou, na época, de "idiots savants" ou sábios idiotas. De lá para cá, pouco se avançou no sentido de se descobrir as causas que levam essas pessoas a terem uma memória extraordinária. Muitos cientistas acreditam que a síndrome está relacionada a algum tipo de dano no hemisfério esquerdo do cérebro que forçaria o lado direito a compensar essa falha. Isto porque as habilidades desenvolvidas pelos portadores da síndrome, normalmente nas áreas de música, pintura, desenho e cálculo são todas relacionadas com esse hemisfério. Já as funções ligadas ao lado esquerdo, como a linguagem e a fala tendem a ser pouco desenvolvidas.
O uso de aparelhos que permitem «scanear» o cérebro, como a tomografia e a ressonância magnética, vem reforçando ainda mais essa teoria. O jornal O Globo refere ainda um estudo coordenado pelo americano Bruce Miller, da Universidade da Califórnia: mostrou que idosos que desenvolveram uma espectacular habilidade para a pintura depois de passarem a sofrer da doença de Alzheimer estavam com o lado esquerdo do cérebro danificado.
O psiquiatra Estêvão Valdaz conta ainda àquele jornal brasileiro que no hospital das clínicas onde trabalha, dos 1.500 pacientes autistas cerca de 150 são portadores da síndrome. A maioria tem uma incrível habilidade com os números, muitos fazem contas complicadíssimas em décimos de segundos – tão rápidos quanto uma máquina. Também são expert em calendários, conseguem calcular rapidamente, por exemplo, em que dia da semana vai cair uma determinada data, mesmo que seja um dia qualquer do próximo século.
«Apesar de possuíram uma memória espectacular, essas pessoas não sabem o que fazer com tudo aquilo o que aprendem. Não sabem como aplicar esse conhecimento na sua vida quotidiana. São, na verdade, grandes decorebas», avalia o psiquiatra nas suas declarações a O Globo.
A Síndrome de Savant, que é quatro vezes mais frequente entre os homens, pode ser congénita ou adquirida após algum tipo de dano cerebral. Não é uma doença de diagnóstico fácil. Principalmente, quando surge em consequência do autismo, que costuma se manifestar na infância. Estêvão Valdaz diz que a maioria dos pais costuma ficar tão maravilhada com as habilidades do filho que custa a crer que na verdade a criança tenha algum problema. tirado DAQUI

No rasto genético do autismo Testes de diagnóstico mais fiáveis do que outros

Factores genéticos aumentam risco de autismo
Factores genéticos aumentam risco de autismo
As intervenções terapêuticas com crianças que demonstrem ter Transtorno do Espectro Autista (TEA) devem começar desde cedo. Existem vários testes cuja finalidade é detectar anomalias no DNA que possam causar problemas para um diagnóstico precoce. Um trabalho publicado na revista «Pediatrics» defende a generalização do uso de um deles.

Na maioria dos casos, os sintomas aparecem antes dos três anos, mas podem igualmente ser diagnosticados muito depois dessa idade. Portanto, pessoas que tenham um filho ou outro familiar afectado têm a probabilidade de virem a ter descendentes com a doença e a resposta está, por isso, nos genes.

Hoje, sabe-se que os factores genéticos que aumentem o risco de desenvolver TEA são variados e isso dificulta a detecção precoce. Os guias de diagnóstico genético recomendam o uso de testes como: Cariótipo dos cromossomas, que permite identificar grandes alterações; e o teste da síndrome do X frágil (também conhecida como síndrome de Martin & Bell), já que em 30 por cento destes têm autismo; mas o potencial destes é bastante limitado.

O estudo então publicado por investigadores do Hospital Infantil e do Consórcio do Autismo de Boston (EUA) sublinham a Análise Cromossómica por Microarray (CMA), por considerarem ter uma taxa de detecção de anomalias genéticas três vezes superior aos seus antecessores.

Os autores testaram as três provas genéticas em 933 pacientes, entre os 13 meses e 22 anos. O cariótipo detectou anomalias em 2,3 por cento, o segundo teste apenas em 0,46 por cento e o CMA em 7,3 por cento dos participantes., para a análise do genoma completo (caso se limitasse a examinar determinadas regiões, potencial descendência).

Análise Cromossómica por Microarray
Análise Cromossómica por Microarray
Ferramenta importante


“O CMA detecta claramente mais alterações do que os outros testes genéticos considerados de standard clínico", explicou David Miller, do Departamento de Genética do Hospital Infantil de Boston. Miller espera que, agora, as companhias de seguros cubram os testes, dada a sua capacidade para detectar anomalias genéticas no DNA.

Os investigadores consideram que o CMA será uma ferramenta importante no futuro, e não só para o diagnóstico do TEA, mas também para estabelecer as causas genéticas e tentar clarificar a origem. A análise poderá avaliar e confirmar a presença do transtorno proporcionando um diagnóstico para intervenção precoce e posteriormente contribuir para uma evolução significativa dos pacientes.
in 2010 Ciencia

Últimas notícias: Células-tronco de pluripotência no combate ao autismo


Todas as aproximadamente 100 trilhões de células que formam o corpo de um indivíduo adulto surgem a partir de um tipo especial chamado "célula-tronco".
Células-tronco podem ser comparadas a jogadores de futebol. Há os centroavantes, especializados em marcar muitos gols mas que se tivessem que exercer a função de zagueiro não corresponderiam. Esses atletas são equivalentes a células-tronco adultas, capazes de se diferenciar em tecidos específicos mas não em todos.

Jogadores com habilidade para jogar bem nas 11 posições não existem, se existissem certamente seriam mais cobiçados que Kaká ou Cristiano Ronaldo. O equivalente em biologia a esses atletas dos sonhos de qualquer treinador são as células-tronco pluripotentes, extremamente versáteis e capazes de originar todos os tecidos do corpo humano.

Por conta dessa característica, existe uma grande expectativa sobre sua eventual aplicação no tratamento de doenças como Parkinson, diabetes, lesões da medula espinal etc.

Células pluripotentes podem ser isoladas de embriões humanos excedentes de clínicas de fertilização e estudadas em laboratório. Há 11 anos atrás, James Thomson nos Estados Unidos foi o primeiro a fazê-lo.

Em 2007, o cientista japonês Shinya Yamanaka surpreendeu o mundo ao gerar a partir da pele, células-tronco tão versáteis quanto as embrionárias. Foi o equivalente a transformar um peladeiro de final de semana num jogador capaz de ser ao mesmo tempo artilheiro e goleiro menos vazado do Brasileirão, e isso com 30 dias de treinamento, um bom par de tornozeleiras e chuteiras!

Yamanaka reprogramou fibroblastos da pele com a ajuda 4 genes cujos produtos são encontrados exclusivamente nos primeiros estágios do desenvolvimento de embriões. Esse genes foram introduzidos nos núcleos dessas células, transformando-as em células-tronco de pluripotência induzida, conhecidas pelo acrônimo iPS.

Uma verdadeira revolução que abriu perspectivas até então impensadas para as ciências biomédicas. Imagina-se que no futuro essas células reprogramadas poderão ser usadas para criar órgãos sob medida, sem o risco de rejeição. Se isso de fato acontecer um dia, as filas de espera por transplantes convencionais serão extintas. Bastaria retirar um pedaço de pele, transformá-la em células iPS e de acordo com a necessidade específica daquele indivíduo criar peças de reposição para reconstruir um coração, baço, pâncreas ou qualquer outro órgão danificado.

Especulações `a parte, o que podemos afirmar atualmente é que a velocidade com que as pesquisas sobre células iPS avançam é impressionante.

No sábado passado pela manhã, reunimos na FeSBE pesquisadores brasileiros que estudam o assunto. O resultado do simpósio superou as melhores expectativas.

O paulistano Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia, demonstrou que não são mais necessários 4 genes para reprogramar células adultas. Basta um só, o Oct-4. É o equivalente a transformar o nosso peladeiro num exímio centroavante/goleiro sem que precisasse mais das novas tornozeleiras (bastariam os 30 dias de treinamento intensivo e é claro, as chuteiras).

Alysson também mostrou o potencial das células iPS como estratégia para se entender o que acontece no cérebro de pessoas com autismo. Como ele fez isso?

Criou neurônios funcionais (idênticos aos do cérebro) a partir da pele dos pacientes. Comparou-os a neurônios de pessoas normais e constatou que as células nervosas de pessoas autistas têm dificuldade para conversar entre si. Com esse novo modelo, poderá testar remédios capazes de melhorar esse diálogo neural deficiente. Caso demonstrem eficácia no laboratório, poderão eventualmente ser utilizados nos próprios pacientes.

Patrícia Braga, da Universidade de São Paulo criou células iPS a partir da polpa de dente, o que abre perspectivas para estudos mais sofisticados sobre doenças pediátricas de origem genética. Bastaria esperar pela queda do dente de leite da criança afetada para criar células iPS com a capacidade de se transformar em todos os seus tecidos e assim estudar em detalhes sua doença.

Dimas Covas, da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, busca gerar células iPS na expectativa de, no futuro, produzir sangue sob encomenda. O que reduziria a extrema necessidade de nossa sociedade por doações de sangue.

Por último apresentei resultados sobre a utilização de células iPS para a identificação de compostos extraídos de plantas brasileiras com potencial de gerar neurônios. A ideia é desenvolver um potente coquetel capaz de criar células nervosas em grande quantidade a partir de células reprogramadas da pele, o que poderá acelerar pesquisas sobre o desenvolvimento do cérebro.

Na parte da tarde desse mesmo sábado, Koji Tanabe descreveu a estratégia original para a criação das primeiras iPS em Kyoto. O jovem pesquisador da equipe de Shinya Yamanaka contou detalhes que poderão nos ajudar a aumentar a eficiência do processo de reprogramação adotado em nosso laboratório.

Resumos dessas apresentações estão disponíveis na página da FeSBE na internet.

A possibilidade de aplicação médica das células iPS é somente uma aposta mas sua utilização nos laboratórios de todo o mundo para a identificação de medicamentos mais eficazes no tratamento de doenças incuráveis já é uma realidade.

O trabalho pioneiro de Shynia Yamanaka transformou a biologia ao criar a partir da pele células tão eficazes para formar novos órgãos como aquelas derivadas de embriões. Que golaço! Seria ótimo para o Fluminense se encontrasse um técnico com o dom desse japonês.

E você, leitor, como imagina que as pesquisas com as células de pluripotência induzida poderão contribuir para o avanço da biologia e medicina?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Máquina do Gênio

Allan Snyder, Centre for the Mind, AustraliaAllan Snyder, Centre for the Mind, Australia
Centre for the Mind




 Helen Phillips da "New Scientist"

Correr riscos é uma das coisas que mais me motivam", diz Allan Snyder. O espantoso é que tantas outras pessoas concordem de bom grado em vestir o "capacete" especial que ele criou, para que Snyder possa transmitir impulsos magnéticos fortes a seus cérebros, numa tentativa de transformá-los -temporariamente- em "gênios" autistas. O pesquisador, que é diretor do Centro da Mente, na Austrália, não explicaria o que faz exatamente com essas palavras . Ele diria que desliga as funções cerebrais superiores para tentar imitar determinados sintomas da doença mental. Mas é basicamente a mesma coisa. Snyder quer ver se é capaz de transformar uma pessoa comum em uma excepcional. E por que ele quer fazer isso? Bem, ele explica, se conseguisse criar condições perfeitas, seu "zapeador" mental magnético poderia funcionar como máquina de criatividade, trazendo à tona um gênio interior que suas cobaias nem sequer tinham consciência de possuir. Em vista da excentricidade evidente de Snyder e do fato de ele próprio admitir seu fascínio com o risco, seria natural que você preferisse fugir a deixá-lo mexer com sua mente. Mas Snyder é muito sério em suas intenções. Reserve um momento para analisar os muitos prêmios e bolsas que ele já recebeu, os centros de pesquisa que dirige na Universidade de Sydney e na Universidade Nacional Australiana, sem falar no fato de atrair pessoas como o Dalai Lama e Nelson Mandela a suas conferências -talvez você ache que vale a pena ouvi-lo. Depois que ele começa a falar, é difícil distinguir onde termina a excentricidade e onde começa o gênio criativo. E talvez seja exatamente isso o que é importante compreender. Não é de hoje que a insanidade é vinculada à criatividade. Van Gogh, Edgar Allan Poe, Tchaikovsky e John Nash, todos se equilibravam sobre uma linha delicada que separa as duas coisas. Mas não foi um gênio psicótico ou maníaco que levou Snyder a refletir. Foram os "gênios" ou "sábios" autistas -pessoas gravemente deficientes, mas que possuem uma ou duas habilidades mentais espantosas. Esses talentos chamam a atenção ainda mais porque freqüentemente se manifestam em pessoas cuja inteligência, com essa exceção, é limitada. Apesar do que se acredita popularmente, o autismo raramente é ligado a capacidades espantosas. Para cada "sábio" autista, existem possivelmente dez outras pessoas em quem o autismo não vem acompanhado de nenhuma habilidade especial. E aproximadamente metade de todos os "sábios" não são autistas, e sim apresentam alguma outra forma de deficiência mental. Entretanto, o simples fato de os "sábios" existirem deu a Snyder uma idéia brilhante. "Minha pesquisa é voltada para a idéia de que é possível ativar habilidades extraordinárias, desligando uma parte do cérebro", ele explica. Não é de hoje que os psicólogos se sentem fascinados diante das habilidades dos "sábios". A visão ortodoxa reza que essas "ilhas de gênio" resultam do uso obsessivo da pouca capacidade mental poupada pela doença. Mas Snyder discorda. Ele acha que todos nós temos habilidades espantosas, escondidas em nosso subconsciente. Para ele, o autismo causa a perda de parte de nossas funções cerebrais normais, e isso às vezes permite que as habilidades especiais se destaquem. A principal razão para pensar que existem habilidades especiais escondidas dentro de todos nós é que elas podem aparecer espontaneamente depois que uma pessoa sofre danos cerebrais. "Sábios" desse tipo também são encontrados entre pessoas que sofrem de uma condição neurodegenerativa rara conhecida como demência frontotemporal. Nessa doença, as pessoas -geralmente na casa dos 50 anos- vão pouco a pouco perdendo suas inibições e suas faculdades mentais, enquanto parte do cérebro situado debaixo de suas têmporas vai se desfazendo. O neurologista Bruce Miller, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, é especialista na doença e já documentou um punhado de pacientes que foram desenvolvendo habilidades artísticas à medida que a doença avançava. Um paciente que até então não tinha tido interesse por arte aos 53 anos começou a desenhar, recriando cenas vívidas da infância. A arte gerada por essas pessoas é distintamente "sábia", diz Snyder -ou seja, consiste em cenas ou memórias realistas, muito mais do que imagens criativas. Mas o que mais chamou a atenção de Snyder foi a descoberta de Miller de que todos os pacientes apresentavam danos na mesma área, o lobo frontotemporal direito. "As pessoas que possuem essas habilidades incomuns as possuem porque sofreram danos cerebrais", diz Snyder. "Nossa teoria é que os danos cerebrais as levaram a acessar algo que todos nós possuímos." Mas o que isso pode ser? Os psicólogos sabem há muito tempo que uma grande parte da atividade cerebral ocorre sem nosso conhecimento e que apenas uma parte pequena chega a atingir nossa consciência. A versão que Snyder apresenta desse modelo reza que nosso cérebro inconsciente extrai todos os detalhes sensoriais brutos referentes ao mundo que nos cerca -os tons, as linhas, a luz e as sombras. Essas informações excedem em muito a quantidade com a qual podemos lidar, diz. Nossa mente inconsciente pega o fluxo de informações, o simplifica e o classifica em categorias úteis e administráveis. Onde se vêem linhas e padrões de sombra e escuro, nossa mente consciente sabe que se trata de um cavalo. Sabemos isso porque nosso cérebro já aprendeu tudo sobre cavalos, já experimentou aquilo que faz um objeto ser um cavalo e não um cão ou uma mesa, e já formou um conceito e uma imagem mental. É uma maneira muito eficiente de nossas mentes trabalharem. Ela nos permite identificar coisas rapidamente, lhes atribuir nomes e comunicar as idéias ligadas a elas. A mente também aprende como essas coisas podem se comportar, de modo que possamos fazer previsões sobre o mundo e criar regras de comportamento apropriado. A essas várias maneiras de extrair significados das informações brutas, Snyder dá o nome de "mindsets", algo como enquadramentos mentais. Na visão de Snyder, o que falta aos "sábios" são esses enquadramentos mentais. Eles recebem apenas informações sensoriais brutas, e seus desenhos precisos constituem reflexos disso. A razão pela qual a maioria das pessoas não consegue desenhar assim é que os enquadramentos mentais as atrapalham. Uma vez que o cérebro formou um conceito, ele inibe a mente consciente, impedindo-a de tomar consciência dos detalhes que geraram o conceito em primeiro lugar. Snyder e seu colega John Mitchell foram a público com essa idéia há cinco anos, mas foram recebidos com ceticismo. Então começaram a tentar provar a tese. É aí que entra o "zapeador mental" magnético. Nem todo o mundo se deixará convencer pela idéia de Snyder sobre o que faz a mente ser criativa. Mas ela é ousada, original e, o que é mais importante, pode ser testada Soa drástico, mas o fato é que o uso de impulsos magnéticos para desligar a atividade cerebral é rotineira em hospitais e departamentos de neurologia. Chamada estimulação magnética transcraniana, ou TMS, ela é usada como ferramenta de pesquisa para verificar a presença de efeitos colaterais de cirurgias cerebrais e para detectar a função de partes do cérebro. A idéia é simples: basta colocar um campo magnético sobre o couro cabeludo e você vai interromper a atividade elétrica em uma parte de seu cérebro, do mesmo modo que colocar um ímã num computador pode travar o disco rígido. Snyder e seus colegas decidiram focalizar a TMS em cima da área de Miller -o lobo frontotemporal esquerdo-, na esperança de que danos temporários e reversíveis a essa área permitissem o surgimento de habilidades "geniais" especiais. No ano passado o teste foi feito, primeiro com o próprio Snyder, depois com 11 voluntários, em condições experimentais. No fim de 2003, Snyder publicou os resultados iniciais de seu estudo (no "Journal of Integrative Neuroscience", volume 2, pág. 149). Falemos primeiro do lado negativo. Apenas quatro dos 11 voluntários reagiram à TMS. Mas isso não é tão incomum assim, diz Niels Birbaumer, do Instituto de Psicologia Médica e Neurobiologia Comportamental da Universidade de Tübingen, na Alemanha. "Em algumas pessoas acontece o efeito, e em outras, não", diz ele. Alterações de estilo Entretanto, diz Snyder, nas quatro pessoas que reagiram, a TMS exerceu efeitos notáveis. Primeiro ele analisou o estilo em que as pessoas desenhavam antes, durante e depois dos 15 minutos de TMS. Pediu aos sujeitos que desenhassem pessoas de memória, depois de terem visto fotos delas por pouco tempo, e animais, a partir de sua imaginação. Não se pode muito bem dizer que a TMS tenha levado os sujeitos a desenhar melhor, mas parece tê-los levado a mudar seu estilo. Pode-se dizer que os desenhos se tornaram mais naturais. Os efeitos duraram cerca de 45 minutos, o que leva a crer ou que a TMS tivesse efeitos que se prolongaram, ou que os sujeitos aprenderam uma nova maneira de fazer coisas. Três das quatro pessoas que reagiram também relataram estados de consciência alterados, dizendo que perceberam mais os detalhes. Snyder também queria um teste mais objetivo, então pediu a seus sujeitos que fizessem a revisão de sentenças contendo, cada uma, um erro não evidente. Sem a TMS nenhum deles identificou os erros, mas com a TMS dois sujeitos tiveram probabilidade maior de detectá-los. Um deles viu seu índice de acerto passar de zero a 70%, outro de zero a 50%. Snyder diz que isso é prova de que a TMS faz os sujeitos verem o mundo como ele é. "Como os "gênios" autistas, eles ficam muito mais literais." Snyder também está desenvolvendo um conjunto de exames para testar habilidades matemáticas, analisando a geração de números primos e as habilidades de cálculo de calendário, além de habilidades musicais. Outros cientistas já tiveram resultados que respaldam as idéias de Snyder. A psicóloga Robyn Young e seus colegas na Universidade Flinders, em Adelaide, Austrália do Sul, num primeiro momento eram céticos em relação à teoria de Snyder, mas analisaram uma gama maior de habilidades sob o efeito da TMS. Ela pediu a voluntários que recordassem listas de nomes, endereços e telefones, que reproduzissem imagens que lhes tinham sido mostradas por pouco tempo, avaliassem tons musicais como sendo mais altos, mais baixos ou iguais ao tom padrão usado no exame e que identificassem os números primos no meio de uma longa lista de números. Cinco de 17 voluntários tiveram melhoras. Se Snyder e sua equipe tiverem razão, e todos nós possuirmos habilidades "geniais" ocultas, ele sugere implicações interessantes. Ele prevê que a TMS possa nos proporcionar, ao menos temporariamente, acesso a habilidades "geniais", como afinação musical perfeita, memória melhor ou facilidade para aprender uma língua sem sotaque. Mas a idéia favorita de Snyder é que ele possa usar a máquina de TMS como "chapéu pensante", para aumentar a criatividade. É uma afirmação e tanto. Os psicólogos não conseguem chegar a um consenso sobre o que é a criatividade nem de onde ela vem, mas uma coisa sobre a qual todos concordariam é que as habilidades "geniais" são tudo, menos criativas. Elas podem parecer criativas, mas na realidade não passam de uma cópia elaborada, diz John Geake, que estuda criatividade na Universidade Oxford Brooks, no Reino Unido. Um pianista "gênio" pode reproduzir uma peça inteira que ouviu apenas uma vez antes, mas seria incapaz de compor ou improvisar. Snyder não discorda dessa visão. "Está claro que as habilidades "geniais" são pura imitação", diz ele, "quase o oposto da criação." Mas ele afirma que existe uma ligação entre a "genialidade" e a criatividade. Ser criativo, ele explica, diz respeito a interligar idéias aparentemente díspares de maneira nova. É possível, então, que olhar rapidamente para o mundo da maneira como o "gênio" o vê, destituído de enquadramentos mentais, ajude a formar tais vínculos. É uma idéia que Snyder e sua equipe acabam de propor ao mundo da ciência neurológica (""Journal of Integrative Neuroscience", volume 3, pág. 19). E, o que não surpreende, as primeiras reações têm sido céticas. Embora, de modo geral, concorde com Snyder que nosso cérebro subconsciente tem muito em comum com os "gênios" autistas, Birbaumer não aceita a teoria de Snyder relativa à criatividade. "É especulativa e improvável", diz ele. Entre demonstrar vislumbres de habilidades semelhantes às dos "gênios" em todos nós e situar essas habilidades no cerne de uma teoria da criatividade, a distância é grande. Há muitas teorias sobre o que faz o cérebro ser criativo, mas nenhuma delas, até hoje, foi comprovada. Nem todo o mundo se deixará convencer pela idéia de Snyder sobre o que faz a mente ser criativa. Mas ela é ousada, original e, o que é mais importante, pode ser testada. Ela pode ser maluca. Por outro lado, também é possível que seja um lampejo espantosamente criativo. Tradução de Clara Allain (Folha de S. Paulo 16/05/2004).
in  aromasdeportugal